quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O ATOR






O ATOR


Um homem (morador de rua?
Sobrevivente por definição)
deitou-se no meio da avenida
em frente à Câmara Municipal.

O motorista do ônibus freou
a dois passos da cabeça do pobre.
A população suspirou aliviada.

O homem levantou-se,
levou a mão ao chapéu
(que não tinha)

e fez uma vênia demorada e pausadamente
agradecendo os aplausos
(que não vieram).

Alguém quis esganá-lo, alguém
pensou na  polícia (apenas pensou )
e o caso foi esquecido. 

E eu escrevo este poema
para que viva por alguns minutos mais.





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

HOMENAGEM A FRANZ KRAJCBERG





HOMENAGEM A FRANZ KRAJCBERG


A árvore secou no alto da montanha
e todas as árvores
prostraram-se
em pranto
copiosamente
em pranto

morreu o barbudo das pedras

                       agora estão definitivamente sozinhas




sábado, 23 de novembro de 2013

A RESPIRAÇÃO DOS MORTOS





A RESPIRAÇÃO DOS MORTOS

a Muricy Domingues

 

A respiração dos mortos ainda audível

Sob o concreto do muro

A lâmina do sol cai corta a garganta

A língua lívida quebra-se

 

J. C. Brandão

 

 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM






O GRANDE DESASTRE AÉREO DE ONTEM


O ônibus veio do aeroporto Tom Jobim
e despencou do alto do viaduto – uns 10 metros de altura! –
dando cambalhotas no ar como um louco
até se esborrachar na Avenida Brasil.

Sete passageiros saíram voando na hora rumo do céu.
Pareciam anjos batendo as asas,
pareciam passarinhos
ou aviões, foguetes, raios, rojões
e num instante, no átimo dum microinstante estavam diante de Deus.

Coitados dos parentes que sofrem tanto,
coitado do motorista que pode ter o seu quê de culpa,
coitado do que brigou com o motorista e tem mais culpa ainda,
coitados dos feridos que podem ficar aleijados
e isso é um mal sem tamanho
ou podem morrer
e isso é um mal sem remédio.
Os sete já morreram e não precisam mais de remédio,
pois gozam já da visão esplendorosa de Deus na sua glória.